...Nas palavras do poeta:


O que é esta vida se, de

tanta preocupação,

Não temos tempo

de parar e olhar? (1)


O fato de não termos tempo para parar e olhar é algo que merece ser

lembrado. Contudo, mesmo quando temos tempo de parar e olhar, e tentar ficar conscientes, nós quase nunca vemos as coisas em si mesmas. O que geralmente vemos é nossa própria subjetividade projetada. Nós olhamos para alguma coisa, mas a vemos através do véu, da cortina, da névoa, da bruma de nosso próprio condicionamento mental.


         Há alguns anos atrás, em Kalimpong (norte da Índia), saí para

caminhar com um amigo nepalês, e tivemos a sorte de parar ao pé de um

magnífico pinheiro. À medida que eu olhava para o tronco uniforme e a massa

de folhagem verde-escura, não pude deixar de exclamar: "Ora, mas que beleza

de árvore!" Meu amigo nepalês, que estava parado a meu lado, disse: "Ah,

sim, é uma bela árvore. Há lenha suficiente aqui para o inverno inteiro."

Ele não viu a árvore em absoluto. Tudo que ele viu foi uma certa quantidade

de lenha. A maioria de nós olha para o mundo das coisas materiais exatamente deste modo, e esta é uma atitude da qual devemos nos desfazer. Temos que aprender a olhar para as coisas em si mesmas, por consideração a elas, um olhar não contaminado por nenhum traço de subjetividade, preferência pessoal ou desejo.


          Esta atitude ou enfoque é muito ressaltada na arte budista do

Extremo Oriente, isto é, na arte da China e do Japão. Em relação a isto, há

uma história de um certo aprendiz de pintor que uma vez perguntou a seu

mestre, um artista célebre, como pintar bambus. O mestre não lhe disse,

entretanto, como pegar o pincel e dar certas pinceladas na seda e no papel.

Ele não disse nada sobre pincéis ou pigmentos, ou mesmo sobre pintura. Ele

apenas disse: "Se quiser aprender a pintar bambus, primeiro aprenda a ver

bambus." Este é um pensamento sóbrio - de que corremos para pintar algo que

nem sequer paramos para olhar - mas é isto o que muitos artistas na verdade

fazem, ou ao menos o que muitos amadores em arte fazem. Então o discípulo,

segundo nos contaram, apenas olhou. Olhar para bambus tornou-se um hábito.

Ele olhava para os colmos, e olhava para as folhas. Olhava para os bambus

sob a névoa, sob a chuva, e à luz do luar. Olhava para eles na primavera, no outono e no inverno. Olhava para bambus grandes e olhava para bambus

pequenos. Olhava-os quando estavam verdes, e quando estavam amarelos, quando estavam novos e flexíveis, e quando estavam secos e apodrecidos. Desta maneira, ele passou diversos anos apenas olhando para bambus. Ele tornou-se genuinamente consciente dos bambus. Ele realmente os viu. E vendo-os, estando consciente deles desta maneira, ele tornou-se uno com os bambus. Sua vida transformou-se na vida dos bambus. A vida dos bambus transformou-se na sua vida. Apenas então ele pintou bambus; e obviamente você pode ter certeza de que eram bambus reais que ele pintava. De fato, poderíamos dizer que tornou-se uma questão de um bambu pintando bambus.


             Segundo o budismo, pelo menos segundo o budismo do Extremo

Oriente - as tradições da China e Japão e, acima de tudo talvez, as

tradições de Ch'an e Zen- esta deveria ser a nossa atitude em relação a

todas as coisas materiais. Esta deveria ser nossa atitude em relação a toda

natureza: não apenas em relação a bambus, mas em relação ao sol, à lua, às

estrelas e à terra; em relação a arvores e flores e seres humanos.

Deveríamos aprender a olhar, aprender a ver, aprender a ficar conscientes, e desta maneira nos tornarmos sumamente receptivos. Por causa de nossa

receptividade, seremos um com  todas as coisas, ou ao menos nos misturaremos a elas; e desta unicidade, esta compreensão de afinidade e profunda unidade, se tivermos um temperamento artístico iremos criar, e verdadeiramente criar.


2. Consciência de si próprio

A consciência de si próprio tem muitos sub-níveis diferentes, dos quais três são de particular importância. Estes são: a consciência do corpo, a

consciência dos sentimentos, e a consciência dos pensamentos.


(a) Consciência do corpo e de seus movimentos

Nos sutras o Buda encoraja seus discípulos a estarem constantemente

conscientes do corpo e seus movimentos. Deve-se estar consciente quando se

anda, se senta, está-se em pé, ou deitado. Deve-se estar consciente da

posição das mãos e dos pés, dos próprios movimentos, dos próprios gestos, e

assim por diante. Segundo este ensinamento, não podemos, se estivermos

conscientes, fazer nada de uma maneira apressada, confusa ou caótica. Temos

um exemplo maravilhoso disto no que é conhecido como a cerimônia japonesa do chá. Aparentemente, a cerimônia japonesa do chá gira em torno de um ato

muito comum, que fazemos todos os dias: preparar e tomar uma xícara de chá.

Isto é algo que todos fizemos centenas e milhares de vezes. Mas como fazem

isso no Japão? Lá isto é feito de um modo bem diferente, porque é feito com

consciência.


           Com consciência, a água é despejada na chaleira. Com consciência, a chaleira é posta no fogão de lenha. Com consciência, a pessoa senta e espera a água ferver, ouvindo o chiado e o borbulhar da água, e observando o tremular das chamas. Finalmente, com consciência a pessoa despeja a água fervente no bule de chá, e com consciência ela serve o chá, oferece-o e o toma, o tempo todo observando completo silêncio.Todo o ato é um exercício de consciência. Ele representa a aplicação da consciência aos afazeres da vida diária. Esta atitude deveria ser introduzida em todas as nossas atividades. Todas deveriam ser conduzidas com o mesmo princípio que o da cerimônia japonesa do chá; tudo deveria ser feito com atenção consciente e consciência, e portanto com calma, quietude, e beleza, bem como com dignidade, harmonia e paz.


          Mas se a cerimônia japonesa do chá representa um certo nível de

consciência na vida diária, e um certo tipo de cultura espiritual- a do

budismo do Extremo Oriente, especialmente o zen- qual cerimônia ou

instituição análoga existe representando a atitude do Ocidente hoje? O que

temos aqui que seja a expressão de todo o espírito de nossa cultura

comercial? Depois de ponderar sobre esta questão, concluí que o

característico de nossa cultura é o almoço de negócios. No almoço de

negócios você tenta fazer duas coisas ao mesmo tempo: tenta fazer uma boa

refeição, e tenta fechar um bom negócio. Este tipo de comportamento, quando

se tenta fazer duas coisas contraditórias ao mesmo tempo, é inteiramente

incompatível com qualquer consciência verdadeira, real ou profunda. É também bastante ruim para a digestão.


           A consciência do corpo e de seus movimentos, se praticada

continuamente, tem o efeito de tornar estes movimentos mais lentos. O

andamento da vida tornar-se-á mais uniforme e equilibrado, e mais rítmico.

Tudo será feito mais vagarosamente e deliberadamente. Mas isto não significa que realizaremos menos trabalho. Isto é uma falácia. A pessoa que faz tudo vagarosamente, porque faz com consciência e deliberação, pode realizar mais do que a pessoa que parece muito ocupada, que está sempre correndo de lá para cá, com montes de papel e arquivos em sua mesa de trabalho, mas que, de fato, não está ocupada, mas apenas confusa. Uma pessoa realmente ocupada envolve-se com suas tarefas de modo silencioso e metódico, e por não perder tempo com trivialidades e alvoroços, ela afinal conseguirá realizar muito mais.


(b) Consciência dos sentimentos

Em primeiro lugar, a consciência dos sentimentos significa sabermos se

estamos felizes, se estamos tristes, ou se estamos em um estado neutro

intermediário, entediados e sem brilho. Ao tornar-nos mais conscientes de

nossa vida emocional, vamos descobrir que os estados emocionais inábeis-

aqueles ligados a anseio, ódio ou medo- tenderão a ser resolvidos; ao passo

que os estados emocionais hábeis- aqueles relacionados ao amor, paz,

compaixão e alegria- tenderão a ser refinados.


... ir à próxima página

Níveis de Consciência - por Sangharakshita - página 2