...Por exemplo, se somos por natureza um pouco esquentados e com propensão à raiva, então à medida que desenvolvemos a consciência dos sentimentos, iremos primeiramente ter consciência de nossos sentimentos de raiva depois de ter ficado com raiva. Com um pouco de prática, teremos consciência de que estamos ficando com raiva. E com mais prática, teremos consciência de que a raiva está a ponto
de surgir.Se continuarmos a aplicar a consciência à nossa vida emocional
desta maneira, os estados emocionais inábeis tais como a raiva irão
finalmente ser reduzidos, ou pelo menos ficarão sob controle.
(c) Consciência dos pensamentos
Se repentinamente nos perguntarem: "O que você está pensando neste momento?" a maioria das pessoas teria que confessar que não sabe. Isto é porque geralmente não estamos realmente pensando; apenas permitimos que os
pensamentos perambulem pela mente. Não temos uma consciência clara dos
pensamentos, estamos apenas vagamente conscientes deles de uma maneira
nebulosa e indefinida. Não há um pensamento dirigido. Não tomamos a decisão
de pensar sobre alguma coisa de forma deliberada. As idéias circulam em
nossa mente de um modo vago, solto e confuso. Elas entram e elas saem, às
vezes apenas em círculos, ou revolvendo-se, e dando voltas e voltas dentro
da mente.
Portanto, temos que aprender a observar de momento a momento, para ver de onde vêm os pensamentos e para onde eles vão. Se fizermos isso,
descobriremos que o fluxo dos pensamentos será reduzido, e que a tagarelice
mental incessante irá parar. Finalmente, se persistirmos com esta
consciência dos pensamentos por tempo suficiente, a mente irá se tornar, em
certos instantes- certos momentos máximos da prática de meditação-
completamente silenciosa. Todos os pensamentos discursivos, todas as idéias
e conceitos, serão eliminados, e a mente permanecerá silenciosa e vazia, mas ao mesmo tempo plena. Este silêncio ou vazio da mente é muito mais difícil de conseguir, ou de experimentar, do que o mero silêncio da língua; mas é neste ponto, quando como resultado do estado consciente a mente se torna silenciosa e os pensamentos desaparecem, deixando apenas a consciência clara e pura, que a meditação verdadeira começa.
Estes três tipos de consciência de si próprio- consciência do corpo e de
seus movimentos, consciência dos sentimentos e emoções, e consciência dos
pensamentos- deveriam ser praticados o tempo todo, seja o que for que
estivermos fazendo. Durante o dia todo e até mesmo- com prática, à noite-
mesmo no meio dos sonhos- deveríamos continuar a estar conscientes. Se
estamos conscientes deste modo o tempo todo: conscientes de como o nosso
corpo se coloca, como abaixamos o pé ou levantamos o braço; conscientes do
que estamos dizendo; conscientes de nossos sentimentos, se felizes, tristes
ou neutros; e conscientes do que estamos pensando, e se este pensamento é
dirigido ou não dirigido- se estivermos conscientes deste modo o tempo todo, mesmo durante nossa vida inteira se possível, iremos verificar que gradual e imperceptivelmente e, não obstante, com certeza, esta consciência irá transmutar e transformar todo nosso ser, todo o nosso caráter.
Psicologicamente falando, a consciência é o agente transformador mais
poderoso que conhecemos. Se aplicarmos calor à água, a água será
transformada em vapor. Do mesmo modo, se aplicarmos consciência a qualquer
conteúdo psíquico, este será refinado e sublimado.
3. Consciência das pessoas
Se estamos de algum modo conscientes em relação às pessoas, geralmente
estamos conscientes delas não como seres humanos, mas como coisas ou objetos "lá fora". Em outras palavras, estamos conscientes delas enquanto corpos físicos colidindo contra nossos corpos físicos. Esta maneira de estar consciente de outras pessoas não é suficiente. Devemos tornar-nos
conscientes delas enquanto pessoas.
Como isto é feito? Como podemos tornar-nos conscientes de outra
pessoa enquanto pessoa? Em primeiro lugar, obviamente, devemos olhar para
elas. Isto soa simples, mas na verdade é muito difícil. Quando eu digo
"olhar para elas" não quero dizer olhar fixamente ou encarar. Não devemos
fixar nelas um olhar hipnótico. Devemos só olhar- e isto não é tão fácil
quanto parece. Eu não estaria exagerando se dissesse que algumas pessoas
nunca realmente olharam para uma outra pessoa, ao passo que algumas nunca
foram realmente olhadas.É, de fato, possível passar uma vida inteira sem
olhar para outra pessoa nem ser olhada por ela; e se não olharmos para
outras pessoas não podemos ficar conscientes delas.
Como parte das atividades da Comunidade Budista Triratna (2) às vezes fazemos os chamados exercícios de comunicação. Existem quatro destes exercícios, e o primeiro deles consiste em "só olhar", isto é, sentar e simplesmente olhar- sem tensão ou embaraço, e sem cair na gargalhada- para a pessoa sentada à sua frente, que também está olhando. Este exercício vem em primeiro lugar porque não pode haver nenhuma comunicação real com outra pessoa, ou nenhuma troca real, a menos que você esteja consciente daquela pessoa. A comunicação é, obviamente, toda uma questão em si mesma. Mencionei-a em relação à Fala Perfeita, e tudo o que preciso repetir aqui é que a comunicação de nenhum modo está confinada à fala. Também pode ser tão direta e sutil a ponto de ser virtualmente telepática. Quando a comunicação é deste tipo, geralmente indica um alto nível de consciência nas pessoas. Além disso, esta consciência "telepática" é geralmente mútua.
Na Índia há uma forma importante de consciência dos outros que é
conhecida como darsan. Isto significa literalmente uma olhada ou uma vista-
uma visão- e é o termo usado para a consciência do professor espiritual. Na
Índia os professores espirituais geralmente têm os chamados ashrams, que são centros de retiros onde o professor mora, onde os discípulos se reúnem à sua volta, e onde as pessoas vêm para vê-lo. Nestes ashrams geralmente, após um serviço noturno chamado ãrati, onde se fazem tremular luzes em frente da imagem de qualquer deidade hindu que estiver sendo venerada, o professor apenas se senta ali e as pessoas chegam. No caso de mestres famosos, as pessoas vêm de toda a Índia. Elas vêm não apenas em centenas, mas dezenas de milhares, e tudo o que elas fazem é sentar e olhar para o professor. Elas "tomam o seu darsan" Em outras palavras, elas fazem o possível para estar conscientes dele- conscientes dele enquanto uma pessoa espiritual, ou como a corporificação viva de um ideal espiritual.
No caso do célebre Ramana Maharshi, que mencionei enquanto discutia a Fala Perfeita, ele costumava sentar em seu ashram "dando darsan" durante semanas e meses a fio. Creio que ele sentou durante cinqüenta anos em um lugar específico e, como eu mesmo vi, as pessoas costumavam vir de toda a Índia para ver, para olhar, para estarem conscientes dele. Com muita
freqüência, elas não faziam nenhuma pergunta, nem entravam em discussões.
Algumas faziam isso, é claro, mas a maioria apenas sentava, olhava e ficava
consciente. Elas "tomavam darsan". De acordo com a tradição espiritual
indiana, não é suficiente aprender escutando as instruções do professor.
Também devemos estar conscientes dele enquanto uma pessoa espiritual. Sem
este tipo de consciência, muito pouco será obtido do professor. Pode-se
ganhar intelectualmente, mas não espiritualmente.
4. Consciência da Realidade
A conciência da Realidade não significa pensar sobre a Realidade; não
significa nem mesmo pensar sobre estar consciente da Realidade. O melhor
modo de descrevê-lo é dizer que a consciência da Realidade é uma
contemplação direta, não discursiva. Ela tem, obviamente, muitas formas, das quais mencionarei uma ou duas.
A consciência da Realidade é o nível de consciência mais difícil de
manter entre todos. Por causa disso, vários métodos foram desenvolvidos para ajudar-nos a manter uma constante recordação ou consciência da Realidade, do Fundamento, do Transcendente. Um destes é a repetição constante de um mantra - uma palavra ou sílaba sagrada, ou conjunto de sílabas, que tem ligação, geralmente, com um Buda ou Bodisatva em particular. A repetição constante deste mantra - obviamente depois que a pessoa já foi devidamente iniciada- não apenas a coloca em contato com o que ele representa, mas a mantém nesse contato em meio a todas as vicissitudes, todos os altos e baixos, e mesmo todos os sofrimentos e tragédias da vida diária. Finalmente, esta repetição torna-se espontânea (não automática), jorrando todo o tempo, mesmo independentemente da vontade pessoal, de modo que um fio tênue de contato com a Realidade é mantido, mesmo no meio de todas as diversões e deveres, das responsabilidades e provações, e dos prazeres também, da existência humana comum.
Estes são os quatro níveis principais de consciência: a consciência das
coisas, a consciência de si próprio, a consciência das pessoas e, cima de
tudo, a consciência da Realidade. Cada um deles tem seu efeito
característico na pessoa que o pratica. Através da consciência das coisas,
como elas realmente são, tornamo-nos livres da mácula da subjetividade. A
consciência de si próprio refina nossa energia psicofísica. A consciência
das pessoas estimula. Finalmente, a consciência da Realidade transmuta,
transfigura e transforma.
Todos estes tipos diferentes de consciência contribuem, em seu
próprio modo característico, para o processo da Evolução Superior. Cada um
deles e todos eles levam-nos muito perto do último estágio do Caminho- o
Perfeito Samãdhi.
1 Tradução livre de: "What is this life if, full of care,
we have no time to stand and stare."
2 Comunidade Budista Triratna, movimento budista fundado por Sangharakshita e que está disseminado em todo o mundo. N.T.
Níveis de Consciência - por Sangharakshita - página 3