Em sânscrito, o estágio de "Consciência Perfeita" é chamado de samyak-smrti (páli sammã-sati). Smrti, ou sati, é geralmente traduzido por "atenção consciente", ou às vezes  como "consciência", mas o significado literal de ambas as palavras é  simplesmente memória ou recordação. A palavra tem várias nuances de significado, e estes nem sempre são fáceis de desemanharar. Irei, portanto, abordar a questão do significado da palavra smrti ou atenção consciente de modo indireto, tomando um exemplo da vida diária. Para começar, será um exemplo não de atenção consciente, mas de desatenção, porque temos mais familiaridade com a desatenção do que com a atenção, e analisando a desatenção talvez possamos mais facilmente chegar a alguma concepção acerca da atenção consciente.


Suponha, então, que você está escrevendo uma carta, uma carta urgente, que de qualquer maneira deve ser despachada no próximo malote postal. Mas como acontece com tanta freqüência na vida moderna, o telefone toca, e é algum amigo seu querendo bater um papo. Antes que você se dê conta, está envolvido em uma conversa bastante comprida. Você continua falando ao telefone por cerca de meia hora, e finalmente a conversa termina, e você desliga o telefone. Você conversou sobre tantas coisas com seu amigo que se esqueceu totalmente da carta, e falou por tanto tempo que agora sente muita sede. Então vai até a cozinha e esquenta água para fazer um chá. Enquanto espera a água ferver, você ouve uma música agradável vinda através da parede que dá para a casa vizinha, e ao perceber que vem do rádio, você resolve ouvir também. Vai rapidamente ao outro quarto, liga o rádio, e começa a ouvir aquela música. Depois que ela termina, começa outra, e você escuta esta também. Deste modo, o tempo vai passando, e é claro que você esqueceu totalmente da água no fogo. Enquanto você está em meio a este estado confuso, semelhante a um transe, ouve uma batida na porta. É um amigo que passou para ver você. Como fica contente em vê-lo, você o recebe. Os dois se sentam para conversar,  e no devido tempo você oferece um chá. Você vai até a cozinha e a encontra cheia de vapor. Daí você se lembra que tinha posto água para ferver há algum tempo, e isto faz você lembrar da carta. Mas agora já é tarde demais. Você perdeu o malote.



Este é um exemplo da desatenção na vida diária. De fato, a vida diária consiste, quase todo o tempo, neste tipo de desatenção. Podemos sem dúvida nos reconhecer nesse retrato. Podemos reconhecer que esta é a maneira caótica, desatenta, em que geralmente vivemos nossa vida.


Agora vamos analisar a situação, para compreendermos melhor a natureza da desatenção. Em primeiro lugar, no nosso exemplo vemos o fato claro e simples do esquecimento, que é um elemento muito importante na desatenção. Esquecemos da carta que estamos escrevendo quando atendemos o telefone, e esquecemos da água fervendo no bule, quando ouvimos o rádio.


Por que esquecemos tão facilmente desta maneira? Por que perdemos de vista algo que deveríamos manter em mente? A razão é que nos distraímos muito facilmente. Nossa mente se volta para outra direção constantemente. Muitas vezes acontece, por exemplo, que estou dando uma palestra sobre algum tema. Todos prestam muita atenção, e há um silêncio completo. Mas então a porta se abre, e alguém entra. E o que acontece? Metade das cabeças giram para trás, como se tivessem sido puxadas pelo mesmo fio invisível. As pessoas se distraem com esta facilidade. Ás vezes o que distrai as pessoas é uma mosca-varejeira batendo-se contra a vidraça de uma janela, ou um dos papéis contendo minhas anotações que cai no chão. Estas coisas mostram com que facilidade nos distraimos, e é por isso que tendemos a esquecer as coisas no dia-a-dia.


Por que nos distraimos com tanta facilidade? Como isto acontece?

Distraimo-nos assim porque nossa concentração é fraca. Se, por exemplo, você estivesse realmente me ouvindo, e realmente concentrado no que eu estava falando, poderia entrar um elefante pela porta e você não perceberia. É porque não estamos concentrados deste modo que a distração ocorre muito facilmente. Não nos concentramos com toda a atenção, esforço ou sinceridade no que estamos fazendo. Geralmente estamos presentes ao que estamos fazendo, dizendo ou pensando apenas de modo parcial.


Por que nossa concentração é tão fraca? Por que estamos presentes de modo parcial? Nossa concentração é fraca porque não temos continuidade de propósito. Não há nenhum objetivo que tenha precedência ou superioridade, e que permaneça inalterado em meio a todas as coisas diferentes que fazemos. Passamos de uma coisa para outra, de um desejo para outro, o tempo todo, como o personagem da sátira famosa de Dryden:


Era tudo intermitente, e nada durava;

mas, no curso de revolução de uma lua,

era químico, violinista, estadista e bufão...


Por não haver continuidade de propósito, por não estarmos concentrados em uma coisa principal o tempo todo, não temos individualidade real. Somos uma sucessão de diferentes pessoas, todas elas um tanto inacabadas, ou embrionárias. Não há nenhum crescimento regular, nenhum desenvolvimento regular, nenhuma evolução verdadeira.


Algumas das principais características da desatenção devem estar agora claras. A desatenção é um estado de esquecimento, de distração, de

concentração pobre, de uma ausência de continuidade de propósito, de

devaneio, de ausência de individualidade verdadeira. A atenção consciente,

obviamente, tem as características exatamente opostas: é um estado de

recordação, de ausência de distração, de concentração, de continuidade e

firmeza de propósito, e do desenvolvimento contínuo da individualidade.

Todas estas características são conotadas pelo termo "consciência", e

especialmente a Consciência Perfeita. Isto não quer dizer que a Consciência

Perfeita seja completamente definida por estas características, mas elas

servirão para dar-nos uma idéia geral do que a atenção consciente ou a

consciência significa, e do que é a Consciência Perfeita.


NÍVEIS DE CONSCIÊNCIA

Vamos passar agora ao tema principal de nossa discussão acerca da

Consciência Perfeita, que são os níveis de consciência. Tradicionalmente,

estes níveis são classificados ou ordenados de várias maneiras, mas aqui eu

proponho discuti-los sob quatro divisões principais: consciência das coisas, consciência de si próprio, consciência de outras pessoas e finalmente consciência da Realidade, da Verdade, do Fundamento. Ao considerar os níveis de consciência sob estes quatro títulos principais  seremos capazes, espero, de ter uma idéia bastante abrangente da verdadeira natureza da Consciência Perfeita.



1. Consciência das coisas

Quando falamos de consciência das "coisas" queremos dizer as coisas

materiais, tais como um livro ou uma mesa. Referimo-nos a todo nosso

ambiente material, repleto de tantos objetos diferentes. Referimo-nos, em

suma, a todo o domínio da natureza. Na maior parte do tempo estamos apenas

vagamente cientes das coisas à nossa volta, e não temos mais do que uma

consciência periférica delas. Não estamos realmente conscientes do ambiente

que nos cerca, não estamos realmente conscientes da natureza, do cosmos, e o motivo para isso é que raramente ou nunca realmente paramos para vê-los.

Quantos minutos por dia- para não falar em horas- passamos apenas olhando

para uma coisa? Provavelmente não passamos nem mesmo segundos deste modo, e

a razão que geralmente damos é que não temos tempo. Esta é talvez uma das

maiores acusações que poderia ser feita à civilização moderna-  a de que não temos tempo para parar e olhar para nada. Podemos passar por uma árvore a caminho do trabalho, mas não temos tempo de olhar para ela, ou mesmo olhar para coisas menos românticas tais como muros, casas e cercas. Isto nos faz pensar acerca do valor desta vida e civilização modernas, uma vez que não sobra tempo para olhar para as coisas.


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Níveis de Consciência - por Sangharakshita